sexta-feira, 2 de novembro de 2007

A Formação Inicial: Considerações

Nesses últimos tempos, temos refletido muito a respeito do processo formativo em nossa Província. A Secretaria de formação inicial dedicou muitos esforços para elaborar um projeto que contemple a reformulação do processo formativo inicial até o noviciado.

É difícil conciliar as opiniões, porque cada frade tem uma concepção de como deveria ser a etapa inicial de formação. Há quem questione a legitimidade de que o Governo Provincial possa promover as mudanças sugeridas pelo Conselho de Formação Inicial. O tempo de formação para a nossa vida deve contemplar também a formação acadêmica, ou somente os aspectos da formação humana, cristã e franciscana?

Aqui cabe uma nova reflexão: Queremos uma formação exclusiva para a vida religiosa no período que vai desde o aspirantado até o Noviciado? A formação acadêmica deverá ser deixada somente para depois do Noviciado? Qual será o itinerário formativo que deverá ser desenvolvido durante esta etapa? Quanto tempo será necessário para que se tenha uma visão clara da vida religioso-capuchinha?

Devemos levar em consideração que os jovens que vem até nós apresentam dificuldades em vários níveis de amadurecimento humano e cristão. Poderemos formar adequadamente os nossos jovens para a nossa vida, com dois anos de postulado e um de noviciado? E os jovens terão condições suficientes para tomar uma decisão em professar o nosso modo de vida?

Estou fazendo estas observações e questionamentos, porque tenho notado uma série de inquietações a respeito daquilo que o Conselho de Formação inicial refletiu a este respeito.

Na reunião dos guardiães e presidentes de Setores surgiu um debate que devemos levar em consideração, porque se trata de uma questão muito importante em nosso processo formativo e deve ser partilhado em todas as fraternidades. Quanto maior for a participação no processo, mais ampla será a visão que teremos sobre a caminhada que desejamos fazer.

Não há sombra de dúvidas que precisamos abrir mão das nossas propostas individuais e construir uma proposta consensual para a Província. Mais do que defender idéias, por mais brilhantes que sejam, precisamos construir o consenso daquilo que consideramos que seja o melhor programa formativo para a nossa vida. Creio que o estudo acadêmico não pode se sobrepor à formação para a vida religiosa. No entanto, considero que a preparação intelectual não se oponha ao cultivo espiritual.

De certo modo, percebo que ainda existe uma tendência dualista, que separa a razão da fé. Aliás, esta é uma discussão que se manifesta em tempos de grandes mudanças. E nós vivemos em grande mudança epocal. Precisamos estar abertos ao novo e encontrar a mais adequada maneira de conduzir o processo formativo para a nossa vida. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer que estamos formando para uma realidade que exige sempre maior qualificação. O amadorismo já não serve mais para responder aos grandes desafios que a sociedade nos apresenta.

O documento de Aparecida (VCelam), fala da “realidade que nos desafia como discípulos e missionários.” Por isso mesmo convido a lançar um olhar atento sobre a nossa realidade para a qual somos chamados no discipulado a exercer a missão de franciscano-capuchinhos. Possamos juntos encontrar a melhor resposta para formar adequadamente aqueles que se sentem chamados para a nossa vida. Queremos formar frades para o século XXI. Não esqueçamos que o principal formador é o Espírito Santo, e todos precisamos acolher as inspirações que ele suscita.

São Francisco nos inspire e ajude a discernir o melhor caminho na formação de nossos vocacionados para que, um dia, sejam nossos continuadores do ideal franciscano-capuchinho. Com grande estima fraterna.

Curitiba, 29 de outubro de 2007
Frei Cláudio Nori Sturm, OFMCap
Ministro Provincial

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Tempo de renovação e de formação permanente

Por ocasião da Festa de Pentecostes, o Ministro Geral nos brindou com carta circular desafiadora. Nela ele aponta ocasião extraordinária de renovação. Não se trata apenas de revisão e renovação dos textos, mas sobretudo da nossa vocação capuchinha.

Por isso mesmo, a carta está intitulada com a expressão conclusiva do Testamento de São Francisco: "Grandes coisas prometemos a Deus, mas coisas maiores Ele nos prometeu". O convite é feito a todos para tomarmos as nossas Constituições nas mãos e nos debruçarmos sobre elas para fazer grande mutirão de estudo e reflexão.

Será extraordinária oportunidade de formação permanente. Algumas fraternidades começaram a leitura das Constituições nos encontros fraternos. Fica a sugestão e o incentivo para que todos leiam individualmente, e se façam em todas as fraternidades momentos de estudo das Constituições.

O Ministro Geral observa que as "Constituições não podem estar desligadas da Regra e devem considerar-se em íntima união com ela, não simplesmente como fruto de genial intuição de Francisco, mas como mananciais da mesma origem!" Isto significa que a leitura das Constituições exige intimidade muito grande com a nossa Regra de vida. "E nós que abraçamos essa forma de vida somos instados a vivê-la com empenho e fidelidade".

E o Ministro Geral nos faz a pergunta desafiadora que tantas vezes já ouvimos: "Quem somos e onde queremos ir?" Precisamos interrogar-nos sobre nossa identidade e descobri-la a partir desse trabalho que todos nos dispomos realizar.

Mas é mais incisiva a interrogação que vem em seguida. "A este ponto, porem, é necessário perguntar-se também: de que espírito nós estamos animados hoje? O que queremos viver? Qual o testemunho e a mensagem que queremos levar ao mundo de hoje? Não podemos começar a trabalhar neste texto das Constituições como se se tratasse de uma tarefa de pouca importância". Aqui está indicado o espírito com o qual deveremos realizar este trabalho.
Além do estudo em fraternidade, sugiro que a reciclagem do próximo ano seja sobre as Constituições. Poderemos convidar frei Moacir Casagrande e/ou Frei Prudente Néry que estiveram na comissão de estudos, com signficativo trabalho para o último Capítulo Geral.
21 dias de contemplação Neste ano estamos dando grande passo no sentido de retomar nosso carisma com os exercícios dos 21 dias de contemplação. É tempo precioso que poderá servir também para descobrir os aspectos mais iluminadores sobre nossa dimensão contemplativa. Não deixa de ser grande oportunidade para renovar o espírito que nos anima, e rever nossa própria identidade. Dentro deste propósito, convido todos a se empenharem de verdade nessa tarefa de redescobrir e aprofundar o jeito capuchinho de contemplar o grande mistério da vida.

Fraternidade evangelizadora
Outra reflexão me é muito cara e gostaria de partilhar com todos os irmãos. Tenho notado algumas dificuldades nas relações fraternas, por parte de alguns freis, e que acabaram afetando o trabalho pastoral. Por isso mesmo tivemos que fazer alguns ajustes nas fraternidades para o bom andamento dos serviços que prestamos ao povo de Deus.

Há um texto de nossa Regra, no cap. IX, que pode iluminar, com maior clareza, o exercício do ministério pastoral ao falar "dos pregadores". A meu ver, esta temática diz respeito à Fraternidade de evangelização, pois a Fraternidade inteira foi enviada a todo o mundo para dar testemunho da Palavra com palavras e ações, dando a conhecer a todos que só Deus é onipotente (3 C. 9).

Aqui podemos encontrar um aspecto fundamental que caracteriza nossa vida fraterna. Ela é chamada a ser genuinamente uma fraternidade evangelizadora. O acento da pregação não está no mandato pessoal do pregador, mas na fraternidade inteira. Significa que não podemos apropriar-nos do ministério pastoral como atividade pessoal. Ela sempre deve partir da fraternidade evangelizadora que se sente enviada e que envia. E por sua vez, cada irmão precisa estar em perfeita comunhão com os demais, quando exerce o seu múnus de pregação, não agindo como quem está desarticulado, e menos ainda, quando em conflito com a fraternidade, dissemina clima de tensão e de descontentamento.

São Francisco, ao falar do ministério da pregação, lembra que ela deve ser acompanhada do espírito de oração e ação de graças, quando diz aos irmãos: "Deus nos chamou para pregar de vez em quando aos homens o caminho da salvação e dar-lhes saudáveis conselhos, e sobretudo para que nos consagremos à oração e ação de graças".

Embora fosse necessário reservar o ofício da pregação a alguns irmãos melhor preparados, São Francisco queria que todos os irmãos pregassem com suas obras: (1 R. 17, 3).
A importância da pregação do exemplo não é só espiritual, mas intuição teológica e evangélica da Missão, porque a Palavra não pode ser separada de Cristo e recebe fecundidade da vida nele; mais ainda, a vocação franciscana consiste em fazer da vida um Evangelho vivo e Palavra exemplar. Neste sentido a Missão pertence a toda fraternidade.

Saibamos cultivar este espírito evangélico em nossa ação apostólica, para que de fato nossa pregação seja muito mais com as obras do que com palavras.
Nosso Seráfico Pai nos ilumine com seu carisma de "homem todo evangélico", para que saibamos viver com simplicidade nossa vocação capuchinha.

Irmãos, que nossa presença junto ao povo seja marcada pela fraternidade evangélica, pela solidariedade e pela paz que anunciamos aos que nos procuram, porque eles esperam de nós o testemunho de filhos de São Francisco.

Curitiba, 30 de junho de 2007
Frei Cláudio Nori Sturm, OFMCap
Ministro Provincial